Uma nova experiência paira em minha vida neste momento e juro que não tinha conhecimento da força que morava dentro de mim. Algumas pessoas sabem que nas últimas duas semanas eu estive continuamente acompanhando minha avó no hospital. É curioso, pois minha vózinha já está quase completando 100 anos e me vem à dúvida ao coração: Posso eu pedir a Deus mais uns anos de vida para ela? Sinto-me em transe e só peço que ela não sinta dor e que fique bem, fora isso não sei se tenho direito de pedir mais alguma coisa. Semana passada o médico nos deu uma noticia nada boa e foi para o espaço qualquer esperança. Ele me chamou e de um jeito resumido me falou: Não tem mais jeito! (...) Finquei meus olhos nele e não disse nada. Dizer o quê? Voltei para o quarto onde minha vó está e segurando a mão dela contive o choro que há tempos estava escondido em minha alma. Sim, eu sei que a morte é certa para todo mundo, mas nunca deixará de ser dolorosa. Fiquei ali calada só apreciando o momento que a mim foi dado, o momento EU e ELA. Já está com alguns dias que ela não fala nada, mas às vezes aperta minha mão quando eu peço.
Confesso que em alguns momentos de medo eu fiquei com vontade de sair correndo, de entrar no meu quarto, trancar a porta deitar na minha cama e chorar por horas. Mas pensei que entre me trancar e minha vó ter pouco tempo de vida havia uma contradição e sem medo de desconsiderar aquilo que naquele momento era doloroso para mim, me perguntei: “-Eu fico sabendo que minha vó tem pouco tempo de vida e vou ficar deprimida ou vou aproveitar o tempo que me resta ao lado dela?”. Fugir, ficar deprimida seria fazer o jogo contrário. Eu não posso modificar os fatos, não posso arrancar a doença dela, não posso rejuvenescê-la, mas posso me manter firme e forte para que a repercussão da enfermidade da minha vó não me deixe enferma também.
E agora eu só quero pensar na possibilidade de viver bem o tempo que ainda nos resta, sendo a melhor neta do mundo, dando a ela a segurança que ela precisa nessa hora. Sei que não posso mudar o quadro, mas eu quero mudar a moldura, pois não tenho como modificar a cena final. Estou ciente de como essa estória terminará, mas estou tentando estabelecer agora um jeito diferente de interpretar isso. Ao invés de pensar na minha dor, no meu sofrimento, vou olhar para minha vózinha e ajudá-la a viver essa hora ficando ao lado dela em todos os momentos que eu puder e tentar celebrar a vida que ela ainda tem. Não quero antecipar dor nem a tristeza que será, pois sei que vai vir e é inevitável, mas estou tentando descobrir (e sei que estou conseguindo) um significado para a vida nessa hora. Não sei quanto tempo eu tenho ainda ao lado da minha vó, mas vou vivê-los com qualidade.
Eu estive lá quando ela ainda estava falando, pude brincar com ela, pude ouvi-la brigar com as enfermeiras, pude escutá-la rir, pude sentir sua mãozinha quente e o melhor pude ser abençoada várias vezes por ela e eu não trocaria esses momentos únicos por nada.
LILIANE: - A bênção vózinha!
VÓ: - Deus te abençoe!!!
Diante das dificuldades que nós temos algumas reações é possível, o grande problema é não reagir. A maioria das pessoas se trancam na estrofe triste e acabam de alguma forma tentando se defender da dor que aquilo pode causar e fogem. É fácil se trancar no quarto, é fácil fechar a porta para as soluções, adornar desculpas para se manter longe do problema. Enfrentar os desafios requer muito esforço. Sei que em muitas ocasiões na minha vida eu escolhi o caminho mais fácil, aqueles menos doloroso, por vezes até fugi. Mas não quero fazer isso agora, não quero fugir, quero enfrentar este momento com serenidade e enfrentar as situações que virão de tudo isso...
O que vai acontecer depois que tudo isso terminar eu não sei, mas sei que a nossa vida é sempre qualificada a partir de dois sentimentos muito comum dentro de nós, ou nós temos saudades boas do que a gente viveu ou nós temos remorso. É no que você está fazendo hoje que você descobre se você está construindo saudades ou construindo remorso. Tudo depende das escolhas que você fez durante o dia. A cada dia você tem matéria prima de futuro, tudo que você escolheu, tudo que você falou, tudo que você ouviu, desejou, fez, tudo é matéria prima que um dia vai virar saudade boa de lembrar ou vai virar remorso.
Eu tenho sorte e agradeço a Deus por não ter perdido oportunidades preciosas de momentos que vivi ao lado dela, pois depois que ela partir não terá mais como. Aliás, muito do que vivi nos últimos dias já viraram lembranças, pois ela já não é a mesma de antes.
Não é fácil descrever tudo isso e não tenho a intenção de deturpar o que estou vivendo. Muitas coisas mudaram o sentindo em minha vida com essa experiência de ver tão de perto uma pessoa que eu tanto amo indo embora assim devagarzinho, me fazendo pouco à pouco aceitar essa separação que antes me era tão assustadora.
Então meus amigos, deixo aqui pra vocês mais uma lição:
Minha vózinha se viver irá completar 100 anos no próximo mês, só Deus sabe se ela chegará com vida até lá. Mas hoje em dia nem todo mundo tem a sorte que ela teve de viver tanto tempo, a vida da gente muda em segundos. Hoje as pessoas que vocês amam estão com vocês, estão com saúde, vivas. Mas e amanhã? Será que estarão?
Não quero incentivar ninguém a viver pensando na morte, o que quero é dizer que aproveitem, utilizem a oportunidade que vocês têm hoje de dizer que amam que perdoam que sente saudade. Aproveitem para abraçar, dizer o que tem vontade, pois a única certeza que temos é o aqui e o agora. Amanhã ninguém tem como saber o que será...
Escrito por Liliane Sá


